Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Concertos com dedicatória (2)

 

In My Mind: Monk at Town Hall, 1959
Jason Moran (piano), Jason Yarde (sax-alto), Denys Baptiste (sax-tenor), Byron Wallen (trompete), Fayez Virjii (trombone), Andy Grappy (tuba), Tarus Mateen (contrabaixo), Nasheet Waits (bateria)
Casa da Música, 29.04.08, 22 horas, Sala Suggia

Fotos: cortesia Casa da Música e © João Messias
 
Foi de rara sensibilidade, persuasão, inteligência e criatividade próxima do génio o extraordinário concerto que o pianista Jason Moran e seus companheiros de jornada nos ofertaram numa experiência única que constitui já um transcendente acontecimento da actual temporada portuguesa, mesmo que certamente considerados todos os géneros e domínios artísticos e culturais.
 
Tendo como móbil principal a invocação de um muito célebre concerto que o pianista e compositor Thelonius Monk realizou em 28 de Fevereiro de 1959 numa famosa sala de Nova Iorque  – então editado em disco pela independente Riverside com o título The Thelonius Monk Orchestra at Town Hall e hoje disponível em CD numa recente reedição da colecção Keepnews Collection já aqui referida –  a obra realizada na Casa da Música em estreia europeia absoluta representou, muito para além dessa referência já de si incontornável, uma fulgurante vivência musical e ainda uma interessantíssima experiência multimédia e audiovisual.
 
Um dos aspectos mais significativos do altíssimo sentido de responsabilidade com que desde logo Jason Moran avançou para este ambicioso projecto foi a postura de inabalável seriedade intelectual  – hoje rara –  com que se predispôs a transfigurar  (não o beliscando na sua força simbólica)  o objecto musical de que partiu.
 
Neste sentido e funcionando como um emissor central, Moran jamais procurou o maior denominador comum para uma mais fácil compreensão da música e dos seus envolventes, não hesitando em optar por uma abordagem ambiciosa e multifacetada dos significados desse repertório e desse concerto.
 
Ao utilizar uma panóplia de dispositivos musicais, audiovisuais e dramatúrgicos que se somavam e completavam uns aos outros, em termos de emissão  – e cujas potencialidades de recepção pressupunham/desafiavam sensibilidades vivificadoras e criativas, independentemente dos graus diferenciados de conhecimento por parte do espectador-receptor em relação ao objecto abordado –  Jason Moran também não se esquivou a que alguns desses sinais de identificação melhor pudessem porventura ser interiorizados por uma parcela relativamente minoritária de iniciados.
 
Eis a forma mais digna, nobre, democrática, revolucionária  (e ao mesmo tempo mais exigente, no plano conceptual)  de se homenagear um mestre, um repertório, uma época, um capítulo da arte do jazz. Dito de outro modo, evitando a banalização do lugar-comum, o facilitismo da cópia, a familiaridade excessiva, a acessibilidade preguiçosa, numa palavra:  ultrapassando a viciosa desconfiança face à intuitiva disponibilidade ou à esclarecida capacidade auditiva do espectador. Algo que um Wynton Marsalis, e outros com e por ele, jamais compreenderão.
 
Desde que, na simbólica abertura do concerto, sozinho frente ao piano e colocando os auscultadores nos ouvidos, Moran começou a interiorizar  [in his mind]  o som vindo da gravação original do próprio Monk, com ele «dialogando» de imediato na mesma linguagem ou depois avançando por outros caminhos em saudável «discussão» com o Mestre, logo se percebeu qual o puzzle que o ouvinte-espectador teria também de construir na sua mente.
 
Um pouco mais tarde, numa fabulosa e complexa versão de Little Rootie Tootie, ao «aproveitar» o inconfundível ritmo dos passos dançados por Monk  (e também ouvidos na banda sonora)  para sobre eles inventar a swingada linha melódica da introdução que sincronamente os seguia, Moran não fazia mais do que transpor para este contexto algo que já inventara para Ringing My Phone, peça construída sobre a fala de uma mulher turca ao telefone (!). [in The Bandwagon, Blue Note, 2003]
 
Do mesmo modo, o aproveitamento para essa mesma banda sonora das conversas de trabalho ou de bastidores entre Thelonius Monk e Hal Overton  (orquestrador do material temático para o concerto do Town Hall)  bem como das reflexões pessoais do próprio Moran acerca da revelação da música de Monk, decorrem em meio de um continuum musical produzido em palco com grande intensidade e diversidade, que não conhece pontos mortos ou de menor significado e no qual a valorização dos silêncios ou das pausas tem um peso e um valor dramatúrgico essenciais, como foi o caso do breve «virar de página» durante o qual os músicos abandonaram conjunturalmente a cena depois de um hino impressionante apenas tocado a cappella pelos metais.
 
[Sublinhe-se, por ser da maior justiça, o rigor e a cuidadosa adequação e verosimilhança da tradução portuguesa projectada no ecrã em acompanhamento dos vários textos e sons gravados. Também ela esteve bem «por dentro» do próprio jazz e, além do mais, facultou-nos uma imagem ainda mais perfeita dos perfis humanos e artísticos de Monk e de Moran]
 
Convém entretanto não esquecer, neste relato certamente empenhado e ainda marcado pela recordação das emoções vividas, essa componente não negligenciável do «enredo» que nessa noite se desenrolou perante todos nós e que  (está bem de ver)  é a própria música de Thelonius Monk, tão admiravelmente recriada por Jason Moran e seu pares.
 
Reunindo para esta digressão europeia o seu trio nova-iorquino Bandwagon a um quinteto de sopros constituído por alguma da nata do jazz afro-hindu-britânico com sede em Londres, Jason Moran demonstrou ser não apenas um dos mais importantes construtores do novo jazz afro-americano como, numa perspectiva mais ampla e apostando numa inusitada miscigenação de talentos e de sangues, um catalisador do carácter hoje universal do próprio jazz.
 
Diga-se então que, no plano musical, um dos pontos mais altos de todo o concerto começou por ser, logo na segunda peça, uma versão transfigurada e arrasadora de Friday The Thirteenth, na qual o minimalismo do tema foi explorado até à exaustão em várias vertentes, estando o obsessivo cromatismo descendente das harmonias sempre presente durante o solo vertiginoso de piano ou na intervenção «quadrada»  (à maneira de Brecht/Weill)  do quarteto a cappella formado por Jason Yarde com os três metais.
 
Depois, uma emocionante recriação de Monk’s Mood  (com o sensível trombone de Fayez Virjii em destaque)  serviu de pano de fundo à verbalização das próprias reflexões de Jason Moran sobre Thelonius Monk, sendo a «colagem» de ‘Round Midnight um verdadeiro achado.
 
Logo a seguir, This is My Story, This is My Song serviu para a engenhosa introdução  (em nova gravação de voz por Moran)  de uma narrativa que nos conduziu aos antepassados de Monk, às referências ao período esclavagista nos EUA, tudo terminando  (após citações dispersas de I Mean You)  no já referido e impressionante hino tocado pelos metais.
 
Representando um corte súbito, Little Rootie Tootie constituiria, então, o regresso ao móbil subjacente a este projecto  – a actuação da orquestra de Thelonius Monk no Town Hall –  com uma swingada versão da peça mais carismática daquele concerto e a reprodução-citação  (muito bem tocada e articulada)  do solo integral que Monk inventou na sua própria versão em trio e que Overton orquestrou para aquela ocasião. No trompete, foi Byron Wallen que desta vez esteve em primeiro plano.
 
E, enquanto a inclusão de Off Minor, em meio de uma improvisação aleatória e colectiva, servia de pano de fundo ao reforço simbólico e encenado da componente multimédia  – com a colocação de auscultadores por todos os músicos e a brevíssima utilização dos planos fixos de três pequenas câmaras em ângulos diferenciados –  o concerto terminaria, em palco, com uma impressiva e emocionante paráfrase do próprio Jason Moran sobre as belas harmonias de Crepuscule With Nellie, estando os brilhantes solos de Jason Yarde e Fayez Virjii em inteira correspondência estética com o original de Monk, apenas citado na exposição final.
 
Acabava assim, em palco, um concerto grandioso, marcado a um tempo pela emoção e pela razão. Mas a festa, essa prosseguiria e extravasaria para fora dele, sob uma fortíssima standing ovation por todo o público e com os músicos a fazerem ecoar a sua música pelas coxias do auditório e pelas escadas e átrios interiores do próprio edifício.
                
Um momento inesquecível! 
                                                           

 
  
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:48
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Não podia ter sido mais feliz a pura coincidência de, em dois dias seguidos, numa mesma cidade (o Porto) e numa mesma ...

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